Internações por malformações e doenças do trato urinário associadas à doença renal crônica em crianças no Espírito Santo
Resumo: A Doença Renal Crônica (DRC) em crianças é um problema de saúde grave que impõe uma carga considerável aos sistemas de saúde, especialmente em países de baixa e média renda. Essa condição tende a progredir para a perda total da função renal e exige a terapia renal substitutiva (TRS). Esta, por sua vez, afeta profundamente a saúde dos
pacientes e familiares. Em crianças, a DRC é frequentemente associada à desnutrição, o que compromete e atrasa o desenvolvimento com uma significativa redução na qualidade e expectativa de vida. O diagnóstico precoce da DRC é uma meta global. Alguns países implementaram estratégias de triagem populacional, com recomendações de exames
de urina em crianças pequenas. Contudo, a relação custo-efetividade dessa abordagem ainda não foi comprovada (NOGUEIRA et al, 2019).
Devido à DRC permanecer silenciosa até atingir estágios mais avançados, o diagnóstico da doença, o início da terapia e o acesso a serviços de saúde podem ser adiados, com evolução para um prognóstico mais reservado e rápida deterioração da função renal. Isso acarreta maior aflição para os pacientes e suas famílias e maiores ônus para a
gestão de políticas públicas em saúde (PAZ et al, 2020).
A taxa de mortalidade em crianças com DRC em diálise é alarmante, e constitui de 30 a 150 vezes superior à da população pediátrica geral. Em adição, um número significativo de crianças com DRC não tem acesso à TRS, e este fato ressalta a urgência de desenvolver tratamentos de baixo custo e implementar estratégias de prevenção eficazes
em nível populacional. A literatura não dispõe de relatórios abrangentes que estimem as características epidemiológicas do tratamento dialítico crônico nessa faixa etária (KONSTANTYNER et al, 2015).
Quanto às causas da DRCi, as anomalias congênitas do trato urinário e do rim (congenital anomalies of kidney and urinary tract CAKUT) são as mais comuns com uma prevalência de 49,1%, seguidas da glomeruloesclerose segmentar focal (GESF) (8,4%), particularmente entre crianças mais velhas. Dentre outras causas encontramos os outros tipos de glomerulopatias (11,6%), a doença cística renal (5,3%), o infarto renal (2,2%) e demais causas (15%) (VANSICKLE;
WARADY, 2022). A CAKUT abrange um amplo espectro de defeitos do desenvolvimento que, juntos, representam a maioria das doenças renais crônicas na infância. Esses distúrbios incluem agenesia, hipoplasia e displasia renal, displasia multicística renal, anomalias de duplicação, obstrução da junção ureteropélvica (OJUP), obstrução da junção
ureterovesical (OJUV), megaureter, válvulas uretrais posteriores (VUP) e refluxo vesicoureteral (RVU). A detecção das anomalias renais aumentou como resultado da melhoria dos cuidados pré-natais e do amplo acesso à ultrassonografia de triagem mais sensível em regiões de alta renda e a maioria dos pediatras encontrarão crianças com anomalias
renais congênitas em um amplo espectro de distúrbios (COSTIGAN; ROSENBLUM, 2022).
Existem escassos estudos observacionais realizados com a população pediátrica com DRC, principalmente em países
de média e baixa renda. Uma pesquisa de base populacional no Paquistão, com um total de 229 crianças de 0 a 16
anos que apresentaram algum grau de disfunção renal persistente, revelou que a mediana de idade no diagnóstico de
DRC foi de 10 anos, houve predominância do sexo masculino (64,2%), com uma proporção entre masculino/ feminino
de 1,8:1. A CAKUT foi a causa básica mais comum de DRC nessa coorte (49%), dessas as condições mais frequentes foram a uropatia obstrutiva (23,5%) e a nefropatia de refluxo (19%). A segunda causa mais frequente foi a doença glomerular (15%) e em 5,7% das crianças a doença causal não pôde ser identificada (AMANULLAH et al, 2022.).
No Brasil, poucos estudos foram publicados sobre DRC na população pediátrica. Konstantyner et al realizou um estudo
transversal em centros de diálise que envolveu todo o território brasileiro. Estimou que em 2012 havia 1.283 pacientes
pediátricos em tratamento dialítico crônico no Brasil, com uma prevalência de 20 casos por milhão da população infantil
(pmarp) e uma incidência de 6,6 casos pmarp .
O Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) é gerido pelo Ministério da Saúde,
através da Secretaria de Assistência à Saúde, em conjunto com as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde,
sendo processado pelo Departamento de Informática do SUS(DATASUS), da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde. As informações contidas no banco de dados do SIH/SUS podem ser utilizadas para demonstrar características de uma determinada doença como prevalência, morbidade, mortalidade, temporalidade, distribuição geoespacial,
procedimentos realizados, dentre outras (CERQUEIRA et al., 2019).
Nesse contexto, os objetivos deste projeto são de analisar o perfil epidemiológico de internações do Sistema Único de Saúde (SUS) em indivíduos menores de 20 anos com doenças e malformações congênitas do trato urinário que são causas básicas da doença renal crônica, no Espírito Santo, através do Sistema de Internações Hospitalares (SIH/SUS) entre 2022 e 2025.
Os resultados esperados para esta pesquisa pretendem ser um alerta crucial para profissionais de saúde e pais sobre a importância da vigilância das afecções e malformações do trato urinário. Essa abordagem proativa é essencial para prevenir a progressão dessas condições para a Doença Renal Crônica de início na infância (DRCi). Além disso, os achados deste estudo poderão contribuir para a implementação de medidas educativas junto às comunidades, contribuindo diretamente para a prevenção da evolução da DRCi. Também, ao monitorar as causas prevalentes da DRCi, será possível estimar futuros gastos com a terapia de substituição renal e o transplante renal. Essas informações
serão de valor inestimável para os gestores de políticas públicas envolvidos no gerenciamento do cuidado de pacientes
com DRC, permitindo uma melhor alocação de recursos e planejamento financeiro. Para a comunidade científica global espera-se que os artigos resultantes desta pesquisa sejam publicados em
periódicos revisados por pares. Essas publicações contribuirão significativamente para o corpo atual de evidências
relativas à epidemiologia da DRCi em um contexto global. Ao compartilhar esses achados, a pesquisa não apenas
impactará políticas locais e nacionais, mas também avançará a compreensão e o manejo global da doença renal
pediátrica. Ao destacar a necessidade crítica de detecção precoce, prevenção e formulação de políticas informadas, esta pesquisa
se esforça para fazer uma diferença significativa na vida de crianças em risco ou que vivem com doença renal crônica.
Data de início: 01/02/2026
Prazo (meses): 48
